1º ato. Um clima nostalgicamente triste, pianos e violoncelos. Soa um tanto confuso. O espectador está muito interessado, mas ainda não consegue identificar o enredo e até mesmo a personagem principal. Também, quem manda entrar levemente atrasado. Perdera a entrada principal, e grande parte dos acontecimentos que teriam impacto direto no desenrolar da dança. Ele pensa em levantar.
É aí que a vê. Se destacando de leve, entre toda a companhia. Entre cada salto leve, cada olhar curioso e aéreo, ela insinua sua presença ante o espectador, que se atém. Não consegue levantar, não consegue nem piscar.
Cada movimento por ela executado levanta uma ideia, e ela faz tantos ao mesmo tempo que o espectador não consegue mais fiar a linearidade dos argumentos corporais. Ele simplesmente se perdeu acompanhando-a com o olhar, porém não consegue não continuar fazendo-o.
As luzes estão se apagando, e o espectador, ignorante, levanta e bate palmas. O susto distrai a bailarina, que erra o salto e tomba. O público vaia, o espectador se encolhe em seu banco cheio de vergonha. Olha a bailarina, ainda no chão: ela o fitava, magoada. Sim, magoada! Ela não o odiava, não o detestava, e nem mesmo o cobrava. Ela só não esperava aquela reação. Ela estava exposta, estava fora de seu mundo. A dor não lhe cabia, ela não a aceitava. Do espectador, ela não queria palmas. Não agora.
Fim do 1º ato. O espectador vai remoendo os últimos minutos passados. De súbito, se vê com uma ideia. Levanta, apressado. Checa o cartaz na entrada do teatro:
"Ballet de Bougainville"
Não consegue conter o sorriso. Se apressa mais ainda, sai do teatro.
Começa o 2º ato. O clima era outro. Como uma tarde de sol, céu claro e poucas nuvens. Gosto de férias aos que merecem. Entra novamente a bailarina, recém recuperada da queda. Na verdade, ela ainda busca se recuperar. Tem o voto de confiança da platéia, mas ainda não sabe se será capaz de brilhar acima da mancha anterior.
Entre piruetas e alguns passos, com toda a delicadeza que lhe cabia, mirou na direção daquele espectador, quase que como desafiando-o a provocar outro problema. Eis que se surpreende: o banco estava vazio.
No primeiro instante, julgou que assim seria melhor. Mas, poucos segundos depois, pensava se não havia sido dura demais com o pobre sujeito. Pensava que talvez, se ela pudesse superar o ocorrido, ele também poderia esquecê-lo e nenhum dos dois sairia ferido daquela apresentação. Pensava, demais. Não devia, mas pensava.
E de tanto pensar, perde o foco nos movimentos. Seu rosto, de fragilidade amável e doçura gentil, franzia em frustração e inquietude. Contrastava demais com a música alegre ao fundo. Mais um salto, e a perna fica bamba.
Ela ia cair, novamente. Ia, de fato. Foram segundos de desespero: pensava nos ensaios duros e cansativos, nas coisas que deixara de fazer, no quanto aquele momento lhe era importante e agora tudo iria por água abaixo. Tudo em função de um maldito espectador.
E ao tocar o chão, ouviu um som abafar sua queda.
Mais que isso, algo havia simplesmente arrastado todos os olhares da platéia para os fundos do teatro.
Era o expectador, que havia batido a porta de emergência. Trazia um buquê nas mãos.
Acontece que o espectador acabava de lhe salvar. Por um único segundo, chamara as atenções todas pra si, no exato momento em que o foco na bailarina poderia ser fatal para todos. Ela então se recompõe rápido, segue seus passos, e sorri para seu herói atrapalhado.
Ele volta, quase exorcizado pelo resto dos presentes, a seu lugar cativo. Buquê em mãos. Não consegue tirar os olhos da bailarina. E então é ele quem se surpreende: agora ela retribuía.
Naquele instante, ele era feliz. Feliz por ter a ideia certa, feliz pelo acaso que lhe promovera a um novo status. Feliz pela chance de encará-la, olhos nos olhos, e - pelo tempo que fosse - participar de seu mundinho particular. Esperou, pacientemente, cada movimento e cada sorriso da bailarina. Reparou na luz que realçava cada centímetro de sua beleza, e que refletia nos cabelos castanhos e de pontas ruivas devidamente planejadas. Desejou tê-los ao redor de seu peito, ou caindo por seus ombros.
Ela estava feliz, naquele instante. Feliz porque ele havia voltado, não estava magoado. Feliz porque tudo havia dado certo no final. Feliz porque eram bougainvilles. Feliz porque ele não havia desistido de vê-la brilhar. Feliz a ponto de dançar o melhor que já tivera dançado em vida, sem sentir a pressão do momento. Voou linda, de ponta a ponta do palco.
Fim do 2º ato, chuva de palmas. Alguns estão emocionados. Mas ninguém poderia entender ou imaginar o sentimento compartilhado pela bailarina e seu atrapalhado espectador. Ainda trocavam olhares, os dois.
Horas depois, batem à porta do camarim. A bailarina abre. Um buquê, uma carta. Um convite, na verdade. Ela se vê aflita: viajaria em algumas horas para a Suécia com a companhia. O que faria?
O espectador não sabia disso. E se soubesse, talvez não lhe importasse. Ele estava na saída do teatro. E com o mesmo sorriso de um pouco mais cedo, recostava-se na parede.
Era uma terça-feira, fazia calor. Nuvens começavam a se formar, talvez chovesse. O ballet tinha acabado. Não se sabe, porém, o que havia começado.


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