Dia de feira.
Você vê a movimentação já cedo. O galo canta, mesmo começando rouco. E não tem como não ouvir, vide que há diversos galos cantando ali pela rua, cada um ou dois em casas no redor da feira.
E claro, os galos que serão vendidos. Alguns são mortos ali mesmo, num rito seco e direto, sem cerimônia. Não dá tempo nem pra sangue escorrer. Geralmente é a pedido do freguês que não possui o sangue frio pra fazer esse ato que há 30 ou 40 anos nossas avós e bisavós faziam diariamente com prazer até. Como é fácil de concluir, raramente há crianças nessa sessão da feira. Ou até há, criadas pra ser como os adultos daquela época. E vai saber no que isso vai dar..
Seja como for, ouve-se o canto (último ou não) dos galos, e anuncia-se, assim, o movimento da feira. As barracas vão sendo montadas. É a hora que acordo.
Lavo o rosto, escovo os dentes. E vou abrindo o apetite. Coloco uma roupa qualquer meio amassada, não me importando muito se há rasgos ou manchas. Eu vou pra lá, vou ali na feira. O povo não liga pra isso. Até estranha excesso de finura, por que qual o sentido? Há lógica em roupas de marca e no estado mais impecável pra cutucar uma fruta e ver se está madura? Me perdoem as burguesas pão duras que vão pra feira economizar mas gostam de ostentar seu status, mas pra tombar e cair de cara é sempre mais fácil ir de salto. E quando o chão tem casca de banana, se torna um fato tão certo quanto em desenhos animados.
Desço as escadas e abro a porta, vou direto na padaria. Ali do ladinho da feira. Aquele sanduíche de mortadela que não tem igual. Coca-cola na garrafa de vidro. Não existe café da manhã melhor, me desculpem os politicamente corretos. E tais iguarias só tem tal poder na padaria. Quem não come sanduíche de mortadela com coca da garrafinha de vidro, não sabe o que é ser suburbano, e talvez nem o que é ser feliz.
Vem o padeiro entregar o pedido, e o papo sobre o futebol. Sempre. Nisso vamos discutindo, amigavelmente. Padaria sempre tem aquele retrato com o time do padeiro. E se não é Vasco, é Fluminense. Sempre. Não conheci nem padeiro flamenguista. Ou é Vasco, porque é filho de português, ou é Fluminense, porque se acha importante. E eu, Botafogo, tiro sarro. Hoje tiro muito sarro. Cada um tem sua vez. Mas fica no companheirismo daquelas boas horas. E o papo segue, enquanto a feira se monta.
É curioso observar a disposição dos feirantes. Chegam rápido, e cada um sabe seu lugar. É quase uma organização instintiva, genética. Açougueiros e peixeiros, frutas, verduras, flores, iguarias, e até gente que vende o que podemos chamar de variedades.
Não erram nunca. Cada um no seu lugar. Não se atrapalham nem interferem entre si, a não ser pra concorrência. Mas é saudável. De modo geral, sua organização os ajuda como um todo. A feira parece mais bonita do que realmente é. Mais agradável aos olhos, e à mente também. Podiam ensinar isso pros "gênios" de arquitetura e design que temos por aí planejando cidades...
E o dia então vai começando. Eu, sentado na padaria, vou terminando meu café. As barracas estão prontas. As pessoas começam a se aproximar, os primeiros clientes.
Daí começa a vida das feiras: barulho e agitação. Mas nada que seja indistinguível ou ensurdecedor. Cada grito e oferta é um só e você reconhece. Aliás, fechar os olhos e apenas ouvir é uma experiência interessante - pode-se imaginar os rostos sorrindo ao pronunciar em plena garganta e pulmões ofertas que rimam com piadas e provocações aos rivais. E também as reações dos fregueses, que avaliam o produto criteriosamente e vez por outra cedem ao bom papo dos feirantes.
Claro, se cada cliente cede vez por outra, não é problema para o feirante, que vez por sempre convence pelo menos 50 fregueses diferentes por dia de feira. E isso em dias fracos. Sabe a retórica, aquela habilidade crucial dos políticos? Garanto-vos, há feirantes que bolariam slogans de dar inveja à Obama e seu "Yes, we can". E sem perder nem um pouco de sua simplicidade. Gosto disso, pessoas simples mas fantásticas.
Levanto, mais uma piada com o péssimo desempenho do time do padeiro. Vou andando pela feira. Tenho que fazer algumas compras também.
Começo pela parte mais tranquila. Frutas. Com o tempo você aprende a avaliar direito o que está maduro ou não, e o que pode ser levado pra segurar em casa até que madure. Gosto de fazer isso encarando o feirante. Eles ficam revoltados. É quase como uma insulta.
"Mas como você ousa? Confie em minha palavra!"
Eu acho engraçado. Claro que ficam ofendidos, mas no fundo sabem que é necessário. O feirante produz e leva pra vender, mas sabe que nem tudo tá 100%. E se você tem intimidade -vulgo comprar sempre com o mesmo cara - é certo que ele te dá um desconto se não tiver muito maduro, ou mesmo se você achar que tá um pouco caro e até se você não tiver dinheiro. A barganha não é exatamente livre, mas é justa. Depende apenas do seu bom senso, porque eles têm bastante.
Levo umas laranjas e maçãs, preferencialmente seletas e gala. Banana também, e tem que ser prata. Entendam, fruta também tem "marca" boa. E os feirantes também sabem. Eu não vejo banana d'água cara por nada nessa vida. Se não é grande coisa, ninguém paga mais que a média.
Dali vou pras verduras, que compro pouco. Alface e chicória. Legumes: tomate, cebola, batata, cenoura. Tudo necessário. E pra cada sacola um trocado a menos no bolso, um sorriso a mais no rosto do feirante. E acabo deixando nascer um em mim também.
Carnes. O açougue parece um verdadeiro campo de batalha. O açougueiro se sente um gladiador, um sobrevivente de guerra, caçador. Sua tenda é seu lar de troféus que quer dividir, mas não antes de exibir com a pompa merecida. E ele corta pra você, com a crueldade requintada de sua faca. O sangue no avental é marca de vencedor. O açougueiro é o mais orgulhoso dos feirantes, e também o mais tenso. Se o gelo e o isolamento acabam, o sol age e seu produto vira torta de moscas. Impedir isso por vezes pode ser uma tarefa de calibre inalcançável. Então o açougueiro, cruel, também tenta ser simpático. Mas de fato ele não precisa. Carne barata é raro. Ele vende muito rápido.
Da mesma forma que o peixeiro. Esse é basicamente um samurai. Se houver um ser humano capaz de criticar seus robalos e camarões, ele comete suicídio.
Sério, não duvide.
Já estou com a cota de sacolas cheia, basicamente. Mas não há como não se seduzir pelos ambulantes que vem com carangueijos, ervas e aparatos improvisados. Sempre conseguem nos fazer comprar. Primeiro porque o que vendem não é fácil conseguir. Segundo, vendem muito barato. Terceiro, são as pessoas mais humildes da feira. E por último: não fazem disso desculpa pra ser infeliz. Trazem sempre o sorriso mais largo, mais sincero.
São daquelas pessoas que te fazem achar graça no fato de hoje ser 11 do 12 do 13. Vai saber o que acham de especial, mas são seres humanos profundos. Acendem aquela paixão pela vida, pelo simples fato de estarmos vivos.
Após isso, me perco, ainda mais atabalhoado, pelas barracas de variedades, por assim dizer. O que não falta é peixe de aquário em sacolinha de água. No chão pode ter alguns cágados e jabutis, então deve-se tomar um certo cuidado pra não tropeçar ou apoiar suas compras num "banco andante". Logo ao lado, vassouras. Pás e raquetes elétricas.
Não faz sentido algum. Mas fica estranhamente bem compassado.
Subo de volta pra casa, já cansado. Guardo as compras enquanto vejo os cachorros da vizinhança se agitarem na direção da feira. Catam as sobras, e brincalhões que são fazem graça pra quem passa. Alguns se agitam e derrubam latas de lixo, pelo simples prazer de xeretar. Fico de bruços na janela achando graça. Não é nada anormal que um dos cães roube uma linguiça do açougueiro.
"Pega ele guerreiro, pega ele!" grito em tom de zombaria. O açougueiro sai em disparada, mas não tem como alcançar o cão e muito menos abandonar seu posto. Volta desolado, e ouve minhas risadas. Olha quase ameaçando. Eu retruco:
"Tá olhando o quê maluco? Tão levando tua picanha!"
Pior que estavam. Cães, e gente sem vergonha na cara. Não há lugar que não brotem.
Algumas horas depois, broto na janela de novo, já me deixando levar pela boemia de quem não bebe mas filosofa demais. A feira já acabou. A rua se invade de breu, não parecem haver vestígios de que havia vida nela há pouco tempo. Tudo é solidão e silêncio. O vento frio chama pra descer e buscar algum lugar, alguém pra encontrar. E semana que vem a feira vai me divertir de novo, pra eu ter a tranquilidade de estar feliz pra fazer alguma coisa nestas noites insólitas.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
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