Hey, você aí

Não, não quero seu dinheiro.
Estava mais pra dizer 'Hey Jude', ou algo assim.
Bom, este blog é sobre mim. Não apenas eu, mas o que penso, sinto, etc. Já foi meio invasivo, já foi vazio. E no fundo ainda é legal, pra mim. Meu cantinho de desabafo e filosofia, se assim posso dizer.
Eu sou um livro aberto. O que quiser saber, pode achar aqui. E o que não conseguir, é porque ainda vamos nos esbarrar por esta vida irônica.

The Beatles

The Beatles
Abbey Road

segunda-feira, 28 de março de 2016

To face the mirror

Acordado. 
Não exatamente pela falta de sono, foi mais a impossibilidade de se manter apagado. Aquele momento em que o sol que escapa pela persiana da janela esquenta as pernas e torna-se insustentável a posição de descanso e o abandono do consciente. Talvez seja até necessário, dado que os sonhos se tornaram repetitivos e não são exatamente agradáveis.

A rotina força o olhar no espelho. Pela higiene, e pra acordar mais. Mas ainda que pela rotina, o espelho prende a atenção do espectador além do esperado. Ou deveríamos já supor como esperado, pois assim o é toda vez que se defronta com o reflexo. 
Com certeza, a surpresa advém da relutância em se prender novamente.

Não é exatamente vergonha de olhar. Não há nada que pese, que force o réu a desviar do olhar do júri refletido. O problema é o motivo que o prende, toda vez.
Não basta aquela primeira encarada matinal, toda aparição no cômodo leva a um novo confronto. Nenhuma palavra é dita, em momento algum. Apenas o olhar e o reflexo.

Existe um quê de agoniante nisso tudo. A sensação profana de que sempre há algo fora do lugar. O desejo fútil e momentâneo de adentrar o espelho, tal qual Alice, e encontrar um país das maravilhas de cada cenário imaginário do passado que poderia ter sido e do futuro que pode vir a ser; e a fatal lembrança de que o mesmo país das maravilhas quis a cabeça de Alice é suficiente para afastá-lo do espelho, enfim. 
Mas não sem sequelas, não sem aquela pequena tortura inevitável.

Ainda que uma tortura, pode ser que haja algo de benigno nesta. Ver-se refletido, aos olhos certos, é se recolocar vivo nas memórias, como numa viagem do tempo. Rostos, lugares, sentimentos, palavras. Tudo vem à tona e é possível ver cada detalhe encrustado em cada feição de quem encara o espelho. É perigoso, mas não é só ruim. Aos olhos certos, parecemos o que vivemos. Se a dor e as cicatrizes são tão visíveis na pele logo abaixo dos olhos, as alegrias e glórias  - inegáveis - marcam o canto da boca. Pra cada fio de cabelo branco de sofrimento, há marcas de incompreensão na testa que franzia e há suor nas têmporas de quem superou.

O espelho pode prender qualquer um. O que você faz ao sair dele, é o que você verá quando voltar.

Um comentário:

  1. O espelho prender qualquer um. O que fez você sair dele é também o que fará você voltar. Gostei da frase original. kkkk

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