Quem me dera, pudesse eu, ser cego a tua presença!
Quem me dera, mais ainda, surdo às tuas súplicas!
Que se espalham pelo vento, endereçadas a um alguém que se perdeu entre as derradeiras curvas da estrada. E eu, perdido também no meio destas, acabo por encontrá-las.
Do teu selo de lágrimas, do teu envelope de saudade, de tudo que vejo não há nada que não me toque.
O nome daquele alguém, não o meu, escrito com tanta dor quanto o amor que te confina.
Mas o que mais me toca é o fato de eu ter visto a mensagem! Pudera eu, ser surdo e cego à ti. E mudo pra não dizer-te o que anseio.
Choro, chorei. Ao ler tua carta ao vento, chorei e vou chorar sempre que em mim a lembrança aprouver de aparecer. E há, sim, de acontecê-lo, vide que não consigo querer me esquecer do que sinto por ti.
Se queres a verdade, escuta: entendo.
Entendo você. Em tudo, cada palavra.
Pensava eu ser o único, mas vejo você e me deparo com a verdade: há alguém que eu posso entender.
E saiba por que entendo.
E talvez sabe, já.
Acostumei-me a solidão que te aflige no fundo de teu peito.
É uma solidão dolorosa, pois por mais pessoas que nos cruzem o caminho, dentre amores e amigos, nenhuma preenche aquele vazio.
O vazio dos que se perderam nas curvas da estrada.
E digo mais: não sei se teve mais sorte ou azar do que eu tive. Fui e sou um lobo solitário que jamais preencheu este vazio. Você, que amo, o conseguiu. Mas talvez a dor de voltar à ele seja muito grande pra se aceitar.
Então não me contenho diante de ti, não mais. Escute, ainda há muito a se dizer.
Não sei se por força do destino ou por semelhança, já me vinham as alcunhas de ultrarromântico. Não posso me dizer poeta, e não quero tirar dos que merecem este título o devido brilho. Não quero manchar-lhes com meu sangue e minhas lágrimas.
E sim, sangue, porque a face enrubescida só me denuncia o amor que tenho.
E é a dor da solidão que falo que nos mata. Esta tristeza, esta sina.
Eu bem te disse, não foi? És uma loba também. Senti tua doçura, mas senti tua dor. E nem sabia.
Queria ser surdo. Não te ouvir nestes instantes!
Não lembrar de mim mesmo. Não achar o que acho.
Acho.
E com gosto, o que me irrita talvez. Não sei dizer.
Todos os sentimentos que absorvo. São o que me fazem assim, este louco exagerado que cruzou o seu caminho. E dentro de mim também reside um menino.
De fato, há diferenças. Meu menino tem lá seus cabelos bagunçados, castanho escuros. Os olhos verdes que buscam a janela das almas dos outros. Costumava ser cabisbaixo. E vivia também ele, no quarto escuro e desarrumado.
Mas com o tempo, o menino me fez lobo, e montou no meu dorso baseado na própria urgência. Acelerou-me pra vida, abandonei meu quarto.
Com as roupas rasgadas e sujas do tempo, o menino aprendeu a ser um pouco feliz.
Mas a solidão que atravessa as paredes do teu quarto, da sua menina, o meu menino carregou no dorso de mim, lobo destas estradas.
Jamais o peso deixou de ser o mesmo. Apenas, houve sorrisos, e bons sorrisos.
Talvez por isso, talvez. Talvez por isso queira eu entrar no seu quarto. Deixar as crianças conversarem. Dar mais brilho ao teu vestido de borboletas, quem sabe fazê-las voar. E arrumar o menino, tão desengonçado.
Entendo a tua dor, queria eu ser poeta.
Posso ser seu poeta, se me deixar.
Se eu mesmo me convenci de tal loucura, talvez eu possa te fazer acreditar de novo.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
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