Batidas.
Acabam de começar.
Acertadas, precisas. Cronometradas. O relógio é um diário da existência.
Os ponteiros andam conforme têm que andar. E assim foi, é e será. Não haverá quem possa atrasar o tempo, nem quem possa fazê-lo se acelerar conforme sua vontade. Não nasceu nenhum salvador, e se nascer tentarão matar.
O tempo são batidas compassadas que ditam a possibilidade de continuar o espaço. A vida, o agora, se faz durante estas batidas. O tempo é o caminho do acaso, templo do destino e berçário das oportunidades. O tempo corre, deve-se alcançá-lo.
Batidas. Mais e mais batidas.
O relógio marca as batidas. A vida corre por elas, nas veias. O relógio marca a vida, mas a vida não é apenas uma medição. Ou seria, literalmente falando.
Mede-se o pulso. Pulso é tempo. Uma forma deste.
Mede-se o pulso, constantemente.
Mede-se o pulso, erroneamente.
Medimos tudo. Anotamos, classificamos. Somos classificados. Lemos classificados.
Medimos tudo, temos os dados. Analisamos, temos respostas. Conclusões e propostas!
Respondemos, concluímos, propomos, solucionamos. As veias são as mesmas pra qualquer um, o tempo é mesmo para qualquer um.
Vivemos ou sobrevivemos? Sonhamos ou nos limitamos?
Batidas, agora menos, diminuindo.
Mede-se o pulso, novamente. Não há ânimo. Risos fáceis dominicais. Descansamos só o corpo. A frustração nos cansa antes de despertarmos. As veias vão se entupindo. O relógio não parou. O fluxo é constante.
Batidas aceleram perigosamente.
E então é silêncio.
Sinto a dor deste e de tantos tempos, jogados fora para se adequar a um suposto mais importante.
Que meu tempo só pare para o meu pulso, dado que este só se freará para o tempo. Que em um vão e singelo momento eu tenha congelado o contínuo espaço, na satisfação de um sentimento caloroso. Que minha memória o estenda por mil vezes. Que ele se repita. Com a constância do pulso.
Que sejamos o pulso sonhado, intensamente.
quarta-feira, 5 de março de 2014
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