Era só mais um.
Não tinha se tornado um artista famoso. Também não era rico.
Não era um gênio realizador de grandes descobertas. Nem um revolucionário que lidera os grandes movimentos libertadores e promotores de mudanças.
Ele não tinha realizado todos seus objetivos de vida. Talvez nem sequer tivesse descoberto a verdadeira extensão de seus sonhos.
Mas havia realizado alguma coisa até, de suas resoluções. Na medida do possível. Era jovem demais, isso se podia dizer. E talvez, em função disso, imaginassem que ele não estava se queixando na hora fatal por ainda não ter alcançado a plenitude de sua determinação.
Não teve manchete de jornal, mas houve quem sentisse como a morte de um ídolo. Até porque pegou a todos de surpresa: o diagnóstico terminal de uma doença rara, que ele fez questão de ocultar da maioria. Só a então namorada sabia. E fora ela a incumbida de mostrar o curto bilhete aos que o amado designara:
"Se eu contasse, vocês surtariam mais do que eu.
Se eu contasse, se preocupariam demais em me agradar e deixariam de ser sinceros.
Se eu contasse, iam sofrer de forma adiantada.
Se eu contasse, alguns seriam capazes de se afastar pra tentar se acostumarem e assim me fariam sofrer mais.
Se eu contasse, se esgoelariam em tentar achar formas de me salvar. Formas que estavam além do alcance de todos nós juntos.
Se eu contasse, não viveria os nossos últimos momentos da maneira que queria: exatamente como eu tinha vivido até então.
Não vou ficar aqui tentando explicar ou procurar razão pro que aconteceu.
Sigam bem, tudo que peço. E amem muito. Amo vocês. Tô de olho, viu?
Fui.
PS: Se existirem espíritos que puxam pé, aparecem em espelhos e coisas do tipo, talvez eu apronte uma dessas com os mais assustados. Desculpem de forma adiantada, mas é que eu não resisto."
A família não conseguia sequer imaginar qualquer coisa como essa ou de qualquer outra natureza. No primeiro momento e até aquela hora derradeira, eram a encarnação perfeita de dor. Fora o golpe mais covarde e mais forte que receberiam em vida: ele era o orgulho, aquele que já tinha conquistado muito mais que todos os antecessores e que ainda prometia vôos maiores. Ele era o laço de conexão das partes separadas, e o exemplo que todos citavam e a que recorriam. A dor - devastadora - só começou a diminuir quando a família notou ser minoria no enterro.
Dezenas. Eram dezenas de amigos. Todos, tão arrasados quanto a família. Isso os confortou. Não esperavam que ele tivesse sido tão popular. Muito menos que causaria tamanha comoção sincera.
Os amigos variavam reações, embora também tomados pela dor. Os colegas mais recentes (pois é claro que ele teria feito novos até mesmo na última semana de vida) eram os mais abalados. Ironicamente, já que não houvera tempo para aprofundar os laços. Talvez fosse esse exatamente o motivo.
Os bons amigos e amigas relembravam, entre si ou em suas mentes de forma isolada, os bons momentos. A forma com que haviam o conhecido. As piadas e histórias que ele contava. Alguns recebiam uma grata surpresa: certos presentes eram testemunhas e personagens dessas histórias. "E eu ainda duvidei." - pensava o mais cético. E estas personagens, por sua vez, vinham dar seu testemunho particular sobre coisas que somente elas haviam vivenciado com o jovem moribundo. Uns choravam ao contar os causos, outros sorriam com plena sinceridade. Estavam gratos pelo encontro em momentos anteriores.
Havia algo curioso tomando lugar no enterro: muitas mulheres cabisbaixas, incapazes de proferir uma palavra. Algumas era completas desconhecidas. Outras, amigas próximas e sempre presentes com o sujeito em vida. Também havia as que foram parte de seu passado. Os mais perspicazes podiam decifrar: eram aquelas que o amaram ou chegaram a amar mesmo secretamente, golpeadas pelo baque de sentir as esperanças de um futuro retorno ou começo se esvaírem.
Os mais próximos, seus maiores companheiros, já não mais choravam. Tentavam refletir o que aquilo significava. Não o acontecimento em si, mas para eles. Se dividiam entre os inconformados, os nocauteados e os poucos otimistas.
Os inconformados arriscavam um palpite:
"Ele deve estar mais chateado por ter sido agora do que nós."
"Como é possível?" - respondiam de volta os nocauteados.
"Vocês acham mesmo que ele abriria mão da chance de ainda ser tudo que dizia assim? É capaz dele ter partido revoltado."
É quando o melhor amigo, o melhor exemplo dos otimistas, fecha as especulações fúnebres:
"Tenho certeza que ele foi mais tranquilo e descansado do que o mais realizado ser humano."
"Mas ele foi tão jovem! Tinha tanta coisa pra fazer entre nós...E como todos disseram, ele queria muito dar prosseguimento nas coisas que fazia. E a forma com que aconteceu.."
"Leiam a lápide." - sentenciou o eterno irmão.
Só então entenderam a verdadeira razão do que estava escrito:
"Fui arrumar a casa. Por favor, arranjem razões pra demorar."
Ficaram todos ali horas a fio. O pai mandara enterrá-lo com uma bandeira do Botafogo, e os amigos lhe trouxeram todos os álbuns de sua banda favorita. Levaram mais 2 ou 3 horas até que o grosso dos presentes caminhasse de volta à suas vidas.
A namorada sentou-se ao lado da lápide, ainda entorpecida. O coveiro pediu-lhe que se retirasse, pra fechar o cemitério.
"Vou demorar amor. Pra ver se é pra ser. E se for, estarei com você."
Mais um dia, só mais um que morreu.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
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