Hey, você aí

Não, não quero seu dinheiro.
Estava mais pra dizer 'Hey Jude', ou algo assim.
Bom, este blog é sobre mim. Não apenas eu, mas o que penso, sinto, etc. Já foi meio invasivo, já foi vazio. E no fundo ainda é legal, pra mim. Meu cantinho de desabafo e filosofia, se assim posso dizer.
Eu sou um livro aberto. O que quiser saber, pode achar aqui. E o que não conseguir, é porque ainda vamos nos esbarrar por esta vida irônica.

The Beatles

The Beatles
Abbey Road

terça-feira, 7 de junho de 2016

Destino (ou o inevitável magnetismo das coincidências perfeitas e improváveis)

Os dois já sabiam o que ia acontecer, em dada altura do campeonato. Os olhares já denunciavam, e o toque chegava a escancarar para o público. E, embora soubessem, pareciam hesitar.
Talvez pelo medo de cometerem um erro. Cada um com seu portinho seguro não lá muito agradável, mas que soava menos arriscado do que largar tudo e nadar em mar aberto em busca de amor. E depois de tanto tempo que passaram agarrados em seus lugares, essa busca parecia amedrontadora.

O que, entretanto, pareciam ignorar solenemente, era que não seria necessária nenhuma busca pra nenhum dos dois. Justamente porque haviam se encontrado, e já sabiam o que ia acontecer. Não demorou pra que ela abraçasse a possibilidade, e ele não tardou a fazer o mesmo. Resolvidas as pendências, resolveram ceder. 

Jamais haviam vivido algo como o que começaram. Nem mesmo o que antecipavam no olhar, dias e semanas antes, não poderia prepará-los para aquilo. Os detalhes mais ínfimos como a alta sensibilidade dela à cosquinhas e a mania dele de criticar o criticável e inescapável cotidiano ganharam importância na mania de ambos de aproveitar brechas para piadas e provocações. E os detalhes mais importantes, como o primeiro beijo, tornaram-se indescritíveis.

Haviam entrado num filme romântico, por mais que ele os detestasse no geral. Ironia, dado o seu romantismo. E ela, fã dos filmes, havia se tornado uma romântica sem nunca ter sido. Definitivamente haviam abandonado a zona de conforto, logo de cara. E ainda assim sorriam feito idiotas.

Em algum ponto do decorrer do tempo, já sabiam que se amavam. E disseram isso. Ele não fazia isso ao vivo há muito tempo, e nunca havia feito nesse contexto perfeito. Ela viveu o momento com toda a intensidade, perdendo o fôlego como sempre. Ele amava vê-la perdendo o fôlego, e também acaba por perder. Ele a amava. E ela também. Essas duas frases, tão clichês nas vidas de ambos e na mitologia social, faziam-se finalmente completamente verdadeiras em suas vidas. 

Não tardaram a namorar. Pensavam os encontros com comicidade, e imaginavam o futuro com tanta comicidade ou mais, adicionando pitadas extras de romantismo e curiosidade. Porque, no fim das contas, o futuro não importava, contanto que estivessem juntos.
Houve um momento em que se preocuparam, de fato, com o futuro: somente para deixar um registro de como eram felizes agora, e para deixar plantada a semente de que querem ter um futuro juntos para checar o registro passado. O exagero desse romantismo causa comoção aos sentimentais, asco aos ásperos e inveja aos solitários. E claro, os dois não ligavam muito para as reações alheias.

Ele quase chorou ao perceber o tamanho do amor que existia ali, naquele gesto do registro. Ela o abraçou, tomada pela felicidade encarnada. Compreendiam a real dimensão das palavras que proferiam, sabiam suas consequências. E com o mesmo sorriso idiota, queriam as consequências. Queriam tudo que o amor pudesse dar.

Narram os amigos mais próximos que o futuro deles foi, como toda sua história, muito além do que poderiam ter imaginado. E perfeito em cada detalhe. Não possuíam a fórmula do amor, mas apenas um fazia ao outro tudo aquilo que o outro ama e passou a amar mesmo sem saber, e fazia naturalmente por ser parte de ser quem esse um era. E vice-versa. E não posso narrar o fim da história, dado que das pessoas que eu seria nela, não sou os amigos no futuro.
Estavam de fato destinados, por alguma força superior, a serem felizes juntos. Logo ela, que não acreditava em destino. Logo ele, que jurava que o destino não ia com sua cara. Destino ou não, as coincidências traçaram uma oportunidade. 

E o que é a vida se não oportunidades?  

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