Sol nascente.
Mais um.
Mais um, e estou lá, mais uma vez. Os apetrechos preparados, sempre a postos. É cedo, talvez ninguém mais esteja no campo...mas estou lá.
Procurei tantos dias e tantas noites, sempre sem muito sucesso. Por vezes, ela despontava nos campos bem rápido - demais para que mesmo o gatilho mais preciso fosse capaz de acertá-la. Mas assim também é compreensível. O que me deixou injuriado mesmo é, sendo ela bicho tão raro, eu ainda fui capaz de estar sem munição quando a criatura simplesmente se fez presente na minha frente, e com a mesma facilidade que apareceu, foi-se. E eu sem balas.
Não me entenda mal. Não estou caçando bicho raro pra botar em extinção. É que o bicho só pára quando lhe aprouver, e assim complica o meu lado. Como disse, de vez em quando me vem com a mania de simplesmente brotar na minha frente, mas eu não a agarro. Não de completo. Não sei se o bicho é arisco ou se me faltam dedos, mesmo.
E aí você se pergunta pra quê que eu quero o bicho se não é pra matar. Aprenda a lógica da sobrevivência: mate sua presa única e satisfaz tua fome pra um dia. Cuide de sua presa e atraia outras da mesma espécie, crie, tenha sempre sobras, sobreviva eternamente.
Mas a metáfora parece cruel não é? Calma-te em teu leito, caro leitor. Tudo tem seu tempo: a bala pra acertar o alvo, o bicho pra fugir da bala, eu pra explicar minha metáfora.
Espere agora, que enquanto conversamos ela despontou aqui na colina. É, pena que você não pode ver! Bicho elegante, vou te contar. A danada tá bebendo água aqui, serelepe, acho que ainda não me percebeu. Escopeta na altura certa...mirando...atirei.
Putamerda, peguei.
Peguei. Para tudo. Peguei.
Arrgh, mas que desgraçada!!!
Deixa eu respirar um pouco. Vida de caçador não é fácil. Bom, passaram uns 5 minutinhos, foi o tempo de correr na colina e chegar perto da criatura. Ela caiu no chão de propósito! Se jogou. A bala nem arranhou a desgraçada. Quando cheguei perto e encostei a capeta me lambeu a cara e saiu correndo. Se jogou de propósito, pra receber um afago! Bandida...
Nem Ortelino Troca Letras deve ter passado por uma dessa. Pernalonga e Patolino são 2 filhos da puta geniais, mas jamais fariam algo assim.
O engraçado é que eu gosto. Desses carinhos que ela me dá, de graça, por querer, e depois me bota correndo atrás. Animais com tendências ciganas, vai entender. Ou infantil como criança. Melhor assim mesmo..
O que eu caço?
A felicidade.
Bicho arisco, com o vento nas patas. Corre rápido pelas florestas escuras antes que a negra noite caia sobre tudo. Gosta de sol, gosta de água limpa. Zombeteira, sabe das minhas sombras e sempre que as vê trata de correr logo. Mas quando estou limpo, corre pra mim. Vem brincar. E me apronta graças: colhe flores pra botar nos cabelos de alguma garota que me esbarra o caminho. E fica cercando o terreno enquanto eu mudo de alvo na caçada. Mas não esqueço nessas horas: "a danada da felicidade está comigo agora. E eu nem preciso agarrá-la". E aí é aquela velha história, fica todo mundo junto quando dá certo, e ela chispa trovejante pelas pradarias pra longe quando o meu tempo fecha - antes de conseguir algo com essa garota enfeitada pelo acaso que a felicidade fez ou mesmo depois de conseguir.
E eu volto, escopeta na mão. Balas de alguma coisa. Até bala halls, se bobear. Só não é bala da PM, isso eu garanto.
A felicidade gosta de visitas rápidas. Ela tem mil motivos pra não estar comigo, com você ou com ninguém que seja. Mas quando ela vem, parece que todo o resto é pouco.
O jeito é esperar ela vir e estar preparado.
Ahh eu ainda pego ela. Ohhhh se pego.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
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