Eu ainda era muito criança, daquelas que teve a sorte de ter pais que se preocupavam de verdade com a cultura que eu absorvia, quando pela primeira vez adivinhei um "o que é o que é?" sem colar na resposta pra saber responder o próximo desavisado que me perguntasse.
Mas esse "o que é o que é?" era um tanto quanto especial. Porque não era uma adivinha de revista infantil, não senhor. Era uma música infantil, cantada pela linda Bia Bedran (quem não conhece, deveria conhecer). E dizia assim:
"O que é o que é?
São 6 mortos esticados
5 vivos caminhando
Mas os vivos estão calados
E os mortos estão cantando!"
Peço a quem estiver lendo que tome o devido tempo procurando responder à esta genial metáfora.
A resposta? Eu, garoto perspicaz que ouvia Bia Bedran e Toquinho pra dormir, respondi de cara.
"É um violão!!"
Sim, um violão. Vê porque deveriam conhecer Bia Bedran? Esse é o nível da metáfora pra uma adivinha pra crianças. E o melhor é ver a criança acertar. É ser a criança a acertar. Como agradeço aos meus pais pelo incentivo cultural constante. Especialmente ao meu pai.
Naquele ano, antes desse dia de data indefinido em minha memória, teve um episódio similar. E até mais importante. A razão pela qual eu sabia a resposta.
A primeira vez que lembro claramente de ver meu pai tocando violão. Eu fiquei estarrecido, maravilhado.
Aí ele ainda vem, com um sorriso que eu nunca soubera descrever, e me pergunta se eu queria tocar.
Aos 6 anos, meu pai me deixava seu violão no meu colo. Eu mal alcançava as primeiras casas do braço, mas a sensação era de plenitude. O brilho da madeira bem trabalhada, a textura das cordas, a vibração, o som.
Depois, ele pegou o violão de volta em seus braços e tocou algumas melodias. Eu não entendia, como ele fazia, muito menos o que ele estava cantando. Como criança, perguntei.
E aí ele me levou pra ver seus LP's dos Beatles, e pela primeira vez em minhas recordações eu escutava Beatles. Isso se misturou e muito a sensação de ter um violão em punho. Isso me dominou como ser desde então.
Mas não é da Beatlemania que vim falar (embora mereça mil posts e documentos). Vim falar daquilo que me tomou pra si e me fez sonhador. A Beatlemania está inclusa. Sabem, a música. Essa arte de forjar notas com chapa de som e ferro de suor, no calor da paixão humana.
Sabem, existem lembranças que se levam pela vida. Mais do que as lembranças que já são queridas. São lembranças únicas, que jamais se repetirão. Dentre estas, as que devo destacar:
A primeira vez que uma mulher disse que me amava.
Cada momento com os melhores amigos que fiz e ainda farei.
E sem dúvida, a sensação de ter um violão em mãos e ser por algum momento forjador.
Tive o prazer de nascer para vivenciar isso. É aquilo que faz minha vida ter sentido completo.
Não há solidão pra mim enquanto houver minha viola do meu lado. Não há tristeza infindável que não possa ser animada, superada, ou mesmo sentida em sua máxima intensidade para então ser refletida. A música está em cada segundo de minha vida. Em cada esquina e recanto, em cada detalhe mísero. Em cada acontecimento fatal e vital que se esbarra e se concretiza no meu caminho.
Descreve, minuciosamente, entre compassos 3 por 4 e cifras rabiscadas, o ritmo de cada nota passada e que ainda será composta pela maneira em que eu caminho nas estradas de 7 nomes. Dá o timbre certo das bifurcações das mesmas, a intensidade de cada um dos meus passos. Há sempre uma música capaz de fazer tudo isso em relação a mim. Desde a nona sinfonia até o tema de "3 homens em conflito', passando pela marcha imperial, alguma melodia que ouvi em "Tom & Jerry" e chegando em "Hey Jude". Sempre há uma música para mim. Talvez me caiba dizer, eu não sou outra coisa que não as músicas.
Sou cada nota, sou cada timbre. Sou a voz que procurei ouvir, sou os versos que já escrevi. Sou o pulsar dos 5 vivos que trazem o lamurio dos 6 mortos. Lamurio bonito, e tão intenso quanto cada sentimento que eu já tive. Também são eles, coisas que as músicas de minha vida saberão expressar. São eles parte de mim que hei de saber expressar.
Hoje, vivendo esse sonho de ser o que amo, sou completo em minhas ambições e desejo de lutar. Quero soar alto e vibrante, quero contagiar o mundo com o que tiver pra cantar. Só hoje, eu entendo e posso descrever brevemente o que foi aquele sorriso de meu pai. Foi o sorriso que eu dei quando vi alguém se fascinar por mim em minha fascinação pelo que me fez o que sou.
Aos que puderem entender minha felicidade nesta foto, e em cada momento similar, peço que, quando eu tiver por fim me calado, digam que não fui nada que não uma canção.
sábado, 18 de maio de 2013
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