sábado, 4 de maio de 2013
Fiar
Diziam as línguas de outrora, que a nossa vida é traçada pelo fio das tecelãs.
Tecelãs quietas, mirradas em sua magreza quase doída de se ver, mas por algum motivo inspiradoras das crônicas mais sérias sobre os motivos mais levianos. Suas mãos, em eterno transe pelo trabalho sem fim, lembram as patas das aranhas que com todo cuidado tecem as teias mais fortes da seda mais frágil.
O fio de nossa vida, assim por dizer, é inquebrável. Não pode ser partido, cortado ou rasgado. A única coisa que acontece com ele é fazer parte da colcha sem fim que registra a história de todos nós. E a cada momento em que as tecelãs o moldam e fazem passar por carretéis e fiares, ele se esvai de seu novelo. O novelo desenrola ao longo de cada dia. Até que termine, e estejamos apenas na colcha.
Diziam também que nesta colcha as cores de cada fio são imprescindivelmente exclusivas. Que talvez trechos dela estivessem contando histórias parecidas e até mesmo idênticas, mas as cores são diferentes sempre. Cada um de nós tem um fio de cor própria, cor esta que carrega tons das cores que nos originaram e das histórias que nos antecederam. Então sim, afirmaram (e não duvido que seja verdade) que todas as cores que já existiram estão contidas em caos harmonioso na colcha da história. E que também estarão contidas todas as outras que forem inventadas pelas nossas formas de viver. Nossa imaginação não há de criar cores que se excluam da colcha, mas sim cores que a façam melhor e mais bonita, capaz de fazer o mais nobre mestre tecelão se ajoelhar perante a beleza da mesma, que nunca estará pronta e acabada, mas sempre terá novos detalhes para impressionar.
E tendo como certos esses 2 fatos ditos pelo tempo, me atenho ao terceiro, talvez o mais derradeiro, dentre o emaranhado de fios. A colcha que nunca acaba registra a vida de todos, sem fim, sempre adicionando vidas e mais vidas ao seu padrão infindável, cada uma de uma cor inimitável. Em cada cor e remendo feito, figuras quase fotográficas registrando cada segundo do devir das almas. Mas, diz-se ainda, e isso pode ser intuitivamente suposto, que existe algo que faz sorrir às velhas tecelãs em meio a sua seriedade do trabalho eterno. Este algo meus irmãos de fio, é quando duas cores se misturam. Quando, pelo simples acaso, dois fios se entrelaçam e fazem algo diferente, um pouco fora dos padrões que cada malha poderia requerer antes de tudo. Isto as faz rir sinceramente. É algo cujo valor é inestimável, pois as cores produzidas são ainda mais originais. São algo que não se compra nas mercearias do universo. São cores que se manifestam naqueles sorrisos, as únicas que de fato excursionam para fora da colcha, mesmo que isto se reduza ao tempo de suas vidas. Se a elas faz rir, então amigos, durante o fio de suas vidas, procurem o fio cuja cor realça a vossa. Mesmo que isto nos faça repetir texturas e pontos em voltas sinuosas, reproduzindo padrões na nossa malha. Haverá, sim, um dado momento em que isto será até extenuante, mas decerto posso dizer que no momento em que nos entrelaçarmos no fiar de outras vidas, quebraremos o padrão com a mais bela surpresa, pois não há nada que se destaque mais que esta quebra. É como pensar cada fio como uma folha de papel com a cor que lhe foi confiada. Olhar para esta folha em sua imensidão monocolor é exaustivo até que surja um ponto diferente, e este, pelo fio, se espalhe e crie algo novo. Seja esta então a razão maior da arte de fiar.
Este entrelaçar de fios que se estende até o fim do nosso nó reservado não tem muita explicação. Para alguns é o acaso do esquecimento, pois a tarefa das tecelãs é quase desumana e sua repetição em tempo integral é virtualmente impossível. Para outros, o encargo das tecelãs lhes permitiu a malícia de fazer tais misturas intencionalmente, em sua malícia sarcástica de sábias senhoras do destino.
Querem a verdade? Encontrem alguém naquele universo que possa perguntar diretamente às tecelãs. Não vejo e nem conheço tal ser em tão importante colocação e em tal possibilidade. Só sei que, se são verdadeiras as histórias, pode-se dizer que procuro o novelo que se entrelace com o meu na colcha. E que seja então uma nova cor o fiar da minha vida.
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