Não sei explicar bem ao certo os últimos acontecimentos. Vou tentar. Vou tentar também não esconder a verdade que eu vejo, tentar deixar tudo sair. Não vou forçar lágrimas de crocodilo, nem soltar fogos de hipocrisia.
Há alguns dias, as coisas aqui pra mim não podiam ser melhores. Diziam que a minha vó tava melhorando, o que significava que eu não ia mais precisar ir cedo todo dia pro colégio. Não ia mais ter que gastar dinheiro pra caralho com almoço. Eu já tinha tomado os rumos da nova era, traçado algum plano otimista de vida (mesmo que na base do 'talvez' e do 'quem sabe'). A inspiração voltava em grande escala, e eu só precisava de um canto com folha, caneta e violão. A guerra entre os pais tinha diminuído pelas circunstâncias, eu andava de bom humor. Minha mãe tinha passado os últimos dias vendo casas e aparts pra alugar aqui na Ilha pela internet. A possibilidade de se mudar acendia mais uma esperança...
Aí, ontem, o ocorrido. A notícia foi um choque. Depois de acalmar um pouco minha mãe (e também seria impossível fazê-la se acalmar por completo na hora, como ainda é agora), eu e meu irmão apenas pegamos os remédios dele, e fomos pra casa do meu pai. Antes de ir pra casa do meu pai eu já tinha recebido o apoio de alguns amigos a quem contei a notícia assim que recebi: Ana Clara, Phelipe, e principalmente, Jenifer. Ela mesmo sem nunca ter um motivo, pergunta se eu estou triste por causa dela. Tem se preocupado absurdamente comigo, e me dado um porto seguro. Nesse momento mais do que complicado, se ofereceu pra estar por perto. Dos amigos que tanto me dão força, ontem ela simplesmente roubou a atenção e foi o motivo principal pra eu não ter surtado em mil confusões de sentimentos. Ainda fiquei são, graças à ela e o meu pai.
Jenifer, se eu for pra escola amanhã, a gente conversa como você queria. Obrigado por tudo.
Meu pai, de todos, tal como eu, é um dos que tem mais motivos pra praguejar e pedir tragédias envolvendo a minha vó. De todas as pessoas, ele foi um dos únicos que bateu de frente, e não por simples birra. Meu pai enfrentou a minha vó materna dia após dia apenas pra poder ficar com a minha mãe. Em nome de algo tão forte quanto amor, a gente passa as piores barras, ISSO EU APRENDI.
Mesmo asssim, ele recebeu a gente pedindo pra rezar pela minha vó. Acima das mágoas, nesta hora, acima de desafeição e ódio, é necessário apenas a compaixão e a solidariedade. Não há mais o que se fazer, se não rezar por paz a um espírito atormentado, e pedir pra que cada um de nós continue forte e não se abale nesta época.
Lá consegui dar algumas risadas vendo o Chico Total, e conversando com meu pai, que adora fazer umas piadas. Nessas horas, só ele consegue entender a nossa situação, e só ele sabe como nos fazer ter alguma alegria antes que entremos em algum colapso emocional. E realmente, eu tava à beira disso: meu saldo emocional não era nada positivo. Sair daquele estado anteriormente citado (que não era nenhuma maravilha, apenas uma atitude tomada em nome do meu orgulho buscando uma promessa de felicidade, mais incerto do que continuar no sofrimento de antes) pra ficar com a tal história do choro da Taissa na cabeça (reforçada pelo estranho subnick dela no msn quando recebi a notícia), preocupado com a Talitha, preocupado em como meu irmão tava recebendo tudo isso, como minha prima tava, como meu primo tava, como minha tia estava lá no hospital (ela passou A SEMANA INTEIRA sem voltar pra casa, lá, na CTI, UTI, sei lá o quê o nome daquela porra, mas ela passou a SEMANA TODA naquela merda, imagina o estado...), e MEGA preocupado com a minha mãe que semanas antes já tinha se acabado de chorar nos meus braços. Enquanto eu dormia na cama armada (sem um colchonete que fosse, era só um bando de lençol...) no chão, remoía um pequeno vazio. Era inacreditável, mas existia um vazio de perda. Mas o motivo da existência dele não era amor pela vó. Era o ódio. Não havia mais porquê o ódio que tanto me corroía as veias existir, se ela não existia mais. Esse tipo de vazio seria algo que eu nunca ia sentir se as coisas tivessem sido diferentes. Mas como vir pra cá foi ter a infância destruída, esse ódio é algo que me acompanha há muito tempo. Juro que estou desnorteado. E tudo isso na cabeça pra durmir na cama ruim mal armada.
Deus tem piedade nessas horas e manda o sono te apagar por completo.
Quando eu acordei, eram umas 10 e pouco da matina. Eu não ia pra aula mesmo, então não me preocupei tanto. Meu pai e a Helena faziam o café, enquanto minha vó Constança gemia por causa da gripe (ela sempre foi exagerada, e meu irmão puxou isso dela, gemendo por causa de uma simples dor de cabeça). Troquei de roupa, e logo em seguida o Diogo acordou.
Tomamos o café, ficamos vendo um pouco de TV. Meu pai, iluminado como sempre, trocou uma idéia com a gente. Meu irmão não odeia tanto a minha vó quanto eu, mas a paciência dele pra fazer coisas em nome dela é 1000 X menor que a minha, SE isso é possível. Resumindo, ele não tava nem um pouco afim de ir no enterro. Eu não sabia se ia. Não era a questão de ser o enterro dela. É o clima, a hipocrisia, o jeito com que as pessoas entram no cemitério, perto do túmulo, como fingem emoção....
Depois de meu pai falar, decidimos ir. Almoçamos antes. Meu pai emprestou sapatos e uma camisa de manga comprida, tanto pra mim quanto pro meu irmão. Nossas camisas eram de manga curta, e tinha esfriado. Fora o fato de que a gente foi pra lá de chinelo. Ao bater das 2, fomos.
Chegamos 2 e 20 por lá. O clima não era nada bom, também o que mais eu podia esperar, era a minha vó que tinha morrido.
Velhos rostos cruzavam olhares e se reconheciam, cada um tentando confortar aos outros enquanto precisava ser confortado. Minha tia tava mais arrasada que a minha mãe. E ela própria tava muito mal também. Reconheci muitos parentes que não via há algum tempo: Felipe e tia Dorinha, tia Gilda, Juliana, Rodrigo, Juninho, tio Nickinho,
...e também muitos amigos da família, principalmente Valéria, madrinha do meu irmão, que deu uma força PRIMORDIAL E ESSENCIAL pra minha mãe. Pra gente também, só que ela é um tanto atrpalhada coitada..rs Fica muito grudada, não precisava tanto. Até porquê, de todas as pessoas ali, meu irmão tava cagando, queria mais ir embora o muleque. Antes que ele começasse a falar merda, eu puxei ele pelo braço:
'Eu nunca te pedi nada nesta vida, então agora eu to meu direito: SEJA MADURO PELO AMOR DE DEUS...'
E bom, pelo menos ele fingiu se importar com a dor dos outros. Na hora de velar o corpo antes de fechar o caixão, muitas lágrimas.
Eu mesmo deixei escapar algumas lágrimas...'quem diria, ela me venceu no fim das contas..' foi o que eu pensei na hora.
É difícil olhar pra uma pessoa, deitada na sua frente, sem vida. Às vezes o ambiente te dá a falsa impressão de que a pessoa tá respirando. A sensação que te passa é que ela pode acordar à qualquer momento. Enfim, entre bobeiras de alucinações e realidade pertinente, eu simplesmente fiquei ali do lado da minha mãe, dando o apoio que ela precisava.
Ao soar dos sinos, as preces se encerraram na pequena capela e todos acompanharam o caixão. Minha vó foi enterrada do lado do túmulo do meu avô (o que pra mim é uma sacanagem..), aos som do choro das irmãs e dos filhos.
Voltamos pra casa. Fiquei surpreso com o bom tratamento da minha mãe com o meu pai. A família toda fez isso sempre, todos gostavam dele, mas desde a separação, era uma guerra sem fim..
Eu, no meu sentimento, só posso dizer que, pra alguém que viveu a vida cultivando o ódio, sendo mesquinha, mentirosa, falsa e cruel, o fim não poderia ser mais generoso. A 'coisa justa' (se é que existe justiça, hoje eu quase não acredito mais nisso..) seria ela ficar sozinha o resto do seu tempo...
Mas as coisas não são assim. No fim das contas, só nos resta perdoar...e seguir em frente com a vida.
Voltei pra casa, voltamos todos. Meu celular denunciou uma ligação: liguei de volta pra ver quem era, era a Jenifer. Ela realmente tem se preocupado. Demais..rs
Só que, quando eu achava que ia apenas entrar no msn pra ficar esperando o povo aparecer, receber alguns 'meus pêsames' e que que eu encontro?
Apenas uma mensagem offline. Grande. Sabe de quem?
ANA MORAES!
PRONTO, AGORA ENROLOU TUDO DE VEZ...
Me dizendo além dos pêsames, que tá me observando de longe, mas que vem pensando em mim. Que quer conversar comigo, que sente minha falta. O pássaro negro ainda sobrevoa meu céu há um bom tempo e eu não percebi a sombra. E com mais esse fator, eu simplesmente estou nocauteado. Há quanto tempo ela lê meu blog sem dar sinal de vida? Há quanto tempo ela me deixou no vácuo nos emails (que foram meu último recurso) e continua me observando?
MAIS QUE TUDO ISSO, POR QUÊ ELA AINDA ME OBSERVOU ESSE TEMPO TODO?
ELA AINDA SENTE O MESMO?
Cara, são tantas perguntas sem respostas...NEM EU SEI O QUE EU QUERO MAIS, NEM EU SEI O QUE EU SINTO!!!!!!!!!!
Tudo no dia do enterro da minha vó. É mais que complicado. É mais que tenso. Só não é trágico porquê o trágico foi a minha vó morrer ontem. Bom, agora descanse em paz. Luz pro espírito dela, e pra gente, porquê se agora não tá fácil, os próximos meses estão com pinta de ser piores.
Eu não tenho a mínima idéia do que vou fazer.. amanhã sei que vou pra aula.
Rezar pra ter força, não sei mais o que tá pra acontecer. Não sei mais o que sinto, não sei mais o que quero..vai ser complicado.....Mas, eu fiz um juramento no Monuma, com todos meus amigos:
'WE SHALL NEVER SURRENDER'
So i'll never surrender.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
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